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Antes de existirem os Vingadores, os X-Men e o Homem-Aranha, existia um empresário de olho no dinheiro, uma pilha de revistas baratas e uma invejinha básica de um certo kryptoniano. Pois é: a origem da Marvel tem muito menos heroísmo e muito mais planilha do que você imagina.
Martin Goodman não era fã de quadrinhos. Ele era dono de revistas pulp, aquelas publicações baratas e coloridas cheias de faroeste, aventura e ficção científica, o tipo de coisa que hoje a gente chamaria de “conteúdo”. Uma delas, aliás, já se chamava Marvel Science Stories, e guarde esse detalhe, porque ele volta mais tarde. Quando o Superman estreou nas bancas, em 1938, e virou uma febre que ninguém esperava, Goodman fez a conta de cabeça: se um cara de capa vende desse jeito, por que não pegar uma fatia do bolo? Em 1939 ele fundou a Timely Publications, a editora que muitos anos depois seria conhecida no mundo inteiro como Marvel.
Só tinha um probleminha: Goodman tinha ideia e tinha dinheiro, mas não tinha ninguém que soubesse fazer quadrinhos. Então fez o que qualquer empresário esperto faria e terceirizou. Fechou negócio com a Funnies Inc., um estúdio comandado por Lloyd Jacquet que entregava revistas prontas para as editoras, com roteirista e desenhista já inclusos, quase um delivery de quadrinhos. Foi de lá que saiu todo o conteúdo da primeira edição.
Essa edição chegou às bancas em 31 de agosto de 1939, com data de capa de outubro (as revistas sempre fizeram isso, é o “adiantamento de calendário” do mercado), e se chamava simplesmente Marvel Comics #1. Dentro dela havia duas estreias que mudariam tudo. A primeira era o Tocha Humana original, criado por Carl Burgos: um androide que pegava fogo ao entrar em contato com o oxigênio, o que, convenhamos, é um defeito de fábrica sério. Assustado com a reação das pessoas, ele fugia sem entender o próprio poder, numa atmosfera muito parecida com a dos filmes de monstros que lotavam os cinemas na época. A segunda era Namor, o Príncipe Submarino, de Bill Everett: metade humano, metade atlante e inteiramente de mau humor com a humanidade que bagunçava os oceanos. A história dele tinha sido feita para uma revista que nunca chegou a ser lançada e acabou aproveitada ali, reciclagem criativa em sua forma mais lucrativa. A revista ainda trazia o Anjo e outros personagens que hoje poucos lembram, o que mostra que nem todo mundo entra para a história.
O mais curioso é que nenhum dos dois era herói certinho, daqueles que sorriem para a câmera e salvam o dia. Eram anti-heróis, perfeitamente capazes de se virar contra os próprios humanos. Enquanto o Superman fazia pose de escoteiro, o Tocha e o Namor viviam na zona cinzenta, e talvez esteja aí o primeiro traço do que a Marvel se tornaria: heróis cheios de defeitos, dilemas e uma raiva que ninguém pediu.
O público adorou. Adorou tanto que a edição esgotou e ganhou uma segunda tiragem já no mês seguinte. Somando as duas, a Marvel Comics #1 vendeu quase 900 mil exemplares, um número e tanto para uma editora estreante que nem artista tinha. A revista passou a se chamar Marvel Mystery Comics a partir da segunda edição, a Timely montou sua própria equipe no ano seguinte e, em 1940, Goodman comprou os direitos dos dois personagens, que até então eram só licenciados (ou seja, ele estava, no fundo, alugando os heróis). O caminho estava aberto, e logo chegariam nomes gigantes, como Joe Simon e Jack Kirby.
Um detalhe que confunde muito fã: a Marvel de 1939 não era ainda a Marvel que a gente conhece. Durante décadas a editora circulou com nomes diferentes, como Timely e depois Atlas Comics, e só em 1961 Goodman adotou de vez o nome Marvel. Então, quando você ouve que “a Marvel nasceu em 1939”, a frase é verdadeira, mas a marca que hoje enche os cinemas ainda ia demorar mais de vinte anos para aparecer. E se bateu a curiosidade sobre o valor desse primeiro número, saiba que um exemplar original já foi vendido por milhões de dólares. Aquela revista que alguém comprou nas bancas por centavos hoje compraria uma casa.
No próximo capítulo, um herói de uniforme azul, vermelho e branco entra em cena em plena guerra, criado justamente por Joe Simon e Jack Kirby: o Capitão América. E olha, ele chega dando soco em Hitler na capa, sem a menor cerimônia.
E você, já conhecia essa origem tão pouco glamourosa? Conta aqui embaixo o que mais te surpreendeu.
Fontes consultadas: 13th Dimension (Marvel Comics #1 e o império que quase não existiu) e ComicConnect.

